Um pilar de concreto não avisa quando vai apresentar problemas. Ele não fissura no dia da concretagem, não denuncia a resistência insuficiente na desmoldagem e não revela o cobrimento inadequado das armaduras enquanto a obra avança. Ele cumpre silenciosamente sua função por meses ou anos. E quando os sintomas aparecem, na forma de manchas de corrosão, fissuras diagonais ou placas de concreto descoladas, a causa já está enterrada na história da execução.
A maioria das patologias estruturais em concreto armado é detectável antes que aconteçam. Não depois, não durante a reforma, não na vistoria de cinco anos. Antes, com os ensaios que deveriam ter sido realizados durante a concretagem. Essa é a função central do controle tecnológico do concreto: transformar o que poderia ser descoberto tarde em um dado verificado a tempo.
Estudos de patologia das construções indicam que aproximadamente 45% das manifestações patológicas em estruturas de concreto armado têm origem em falhas no projeto, enquanto a parcela restante está distribuída entre erros de execução, uso de materiais fora de especificação e ausência de controle durante a produção. O que esses dados revelam é que boa parte dos problemas é evitável quando existe um processo técnico rigoroso de verificação dos materiais e da execução.
Este post detalha como o controle tecnológico do concreto funciona na prática: desde o ensaio de consistência realizado antes do lançamento até o protocolo de investigação quando um resultado fica abaixo do fck especificado em projeto. O objetivo é documentar o mecanismo completo de prevenção, para que quem projeta, executa ou contrata obras entenda por que esse controle não é uma formalidade, mas uma decisão técnica com consequência direta na durabilidade e na segurança estrutural.
O que são patologias estruturais do concreto e onde elas realmente começam
Patologia estrutural é qualquer manifestação que compromete o desempenho, a durabilidade ou a segurança de um elemento de concreto armado. Fissuras, corrosão de armaduras, carbonatação, ninhos de concretagem, desplacamento do cobrimento, eflorescências, deformações excessivas. Cada uma dessas manifestações tem causas identificáveis e, na maioria dos casos, rastreáveis a uma decisão ou omissão que ocorreu durante a produção do concreto.
A literatura técnica de patologia das construções, particularmente os trabalhos de Paulo Helene e Souza & Ripper, consolidou há décadas um dado que permanece válido e frequentemente subestimado: a maior parte dos problemas diagnosticados na fase de uso de uma edificação tem raiz na fase de produção. O que muda é o momento da manifestação, não o momento da origem. A carbonatação que expõe a armadura aos dez anos de vida da estrutura começa com a relação água/cimento incorreta e o cobrimento insuficiente que existiram na concretagem original.
Essa temporalidade é o que torna as patologias de concreto particularmente onerosas. Quando aparecem, a estrutura já está entregue. Há moradores ou usuários no edifício. A responsabilidade civil está em disputa. O custo de investigação, projeto de recuperação e execução da intervenção pode superar em muitas vezes o custo que teriam sido os ensaios de controle tecnológico que não foram realizados durante a obra.
As patologias mais frequentes em estruturas de concreto armado incluem:
- Resistência à compressão abaixo do fck de projeto, decorrente de traço incorreto, excesso de água, adição de água no caminhão betoneira ou cura inadequada.
- Carbonatação avançada, provocada pela penetração de CO₂ atmosférico na massa porosa do concreto, reduzindo sua alcalinidade e removendo a proteção química das armaduras.
- Corrosão de armaduras por cloretos, típica de ambientes marinhos ou industriais, quando íons cloreto penetram pelo concreto insuficientemente compacto e atingem as barras de aço.
- Fissuras por retração, originadas na cura inadequada do concreto, quando a perda rápida de água gera tensões internas de tração acima da resistência do material ainda jovem.
- Ninhos de concretagem, resultantes de lançamento em excesso de uma só vez, adensamento insuficiente ou concreto com consistência muito seca para a densidade da armadura.
- Cobrimento insuficiente das armaduras, que reduz o tempo até a frente de carbonatação ou cloretos alcançar o aço, antecipando em décadas o início do processo corrosivo.
Cada uma dessas patologias tem um ou mais ensaios de controle que a preveniriam se tivessem sido realizados durante a execução. Isso não é uma constatação teórica. É o que a cadeia de ensaios do controle tecnológico do concreto está projetada para detectar.
A relação água/cimento como parâmetro central da durabilidade
Antes de entrar nos ensaios, é preciso entender o parâmetro técnico que mais influencia tanto a resistência quanto a durabilidade do concreto: a relação água/cimento (a/c). É a razão entre a massa de água e a massa de cimento na mistura. Quanto mais alta essa relação, mais poroso e permeável o concreto resultante. Quanto mais poroso, mais vulnerável à entrada de agentes agressivos.
O mecanismo é direto: a água que não participa da hidratação do cimento cria poros capilares na pasta endurecida. Esses poros formam um sistema de caminhos interconectados por onde CO₂, íons cloreto, umidade e outros agentes penetram na massa do concreto ao longo dos anos. A permeabilidade do concreto, e portanto sua durabilidade, é determinada essencialmente pela relação água/cimento.
A NBR 6118 classifica os ambientes em quatro classes de agressividade ambiental, de I (fraca, ambientes rurais secos) a IV (muito forte, ambientes marinhos com zona de respingo ou industriais com gases agressivos). Para cada classe, a norma define valores máximos de relação água/cimento e valores mínimos de fck que o concreto deve atender. No caso mais rigoroso (classe de agressividade IV), a relação a/c máxima admissível é 0,45 e o fck mínimo é C40.
Na prática de canteiro, o problema é frequente e bem documentado: a equipe de produção do concreto adiciona água à mistura para melhorar a trabalhabilidade, reduzir a dificuldade de lançamento e adensamento. A intenção é de curto prazo. O efeito é de longo prazo e negativo: cada litro de água adicionado além do traço especificado aumenta a relação a/c, aumenta a porosidade e reduz tanto a resistência quanto a durabilidade.
O slump test, descrito na próxima seção, é o primeiro instrumento de controle que detecta esse desvio antes que o concreto seja lançado na estrutura. Mas detecta apenas a consistência, não a relação a/c diretamente. É a combinação entre o slump test, a rastreabilidade do traço recebido e o ensaio de resistência dos corpos de prova que fecha o círculo de controle.
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O slump test: o primeiro filtro antes do lançamento
O ensaio de consistência pelo abatimento do tronco de cone, amplamente conhecido como slump test, é o procedimento de controle realizado no concreto fresco, antes que qualquer quantidade seja lançada na estrutura. Regulamentado pela ABNT NBR NM 67, o ensaio verifica se a consistência do concreto recebido está dentro da faixa especificada em projeto para o tipo de elemento a ser concretado.
O procedimento é simples na execução e revelador nos resultados. Um molde tronco-cônico de dimensões padronizadas (300 mm de altura, 100 mm de diâmetro superior, 200 mm de diâmetro inferior) é preenchido com concreto em três camadas iguais, cada uma adensada com 25 golpes de uma barra compactadora. Após o preenchimento, o molde é retirado verticalmente, e o concreto, sem o suporte da fôrma, abate por gravidade. A diferença entre a altura original do molde (300 mm) e a altura final do concreto após o abatimento é o slump, medido em milímetros.
A amostra, segundo a NBR 12655, deve ser coletada após o descarregamento de ao menos meio metro cúbico do caminhão betoneira, representando o terço médio da carga. Não se coleta do início nem do final da descarga, pois essas porções podem não ser representativas da mistura homogênea.
O que o resultado do slump test revela na prática:
- Um slump muito baixo (abaixo da faixa especificada) indica concreto com consistência excessivamente seca, que pode gerar dificuldades de adensamento com o vibrador e formar ninhos de concretagem em elementos com armadura densa.
- Um slump muito alto (acima da faixa especificada) indica, na maioria dos casos, excesso de água na mistura além do traço previsto, o que eleva a relação a/c, reduz a resistência e aumenta a porosidade do concreto endurecido.
- Um slump dentro da faixa especificada indica consistência compatível com o traço e as condições de lançamento previstas. Não é garantia de resistência, mas é o primeiro sinal de que o concreto chegou na condição correta.
Quando o slump está fora da faixa de aceitação, o concreto deve ser rejeitado antes do lançamento. O caminhão retorna à central sem ter descarregado. Essa é a ação mais barata da cadeia de controle: rejeitar o concreto antes que ele entre na estrutura. O custo de rejeitar um caminhão é o atraso de horas. O custo de descobrir o problema nos corpos de prova rompidos aos 28 dias é o protocolo de investigação, a possível extração de testemunhos e, no pior cenário, a demolição e recomposição do elemento.
Cada exemplar para controle tecnológico do concreto é composto por dois corpos de prova da mesma amassada, moldados conforme a NBR 5738, identificados com o número da betonada e a localização na estrutura.
A moldagem dos corpos de prova: o protocolo que define a rastreabilidade
Aprovado o concreto no slump test, a amostra do mesmo lote de concreto é usada para a moldagem dos corpos de prova cilíndricos que serão rompidos em laboratório nas idades de controle. Esse é o elo de rastreabilidade entre o material que entrou na estrutura e o resultado de resistência que será registrado no laudo.
A moldagem segue os procedimentos da ABNT NBR 5738. Os moldes cilíndricos de 10 cm de diâmetro e 20 cm de altura (a combinação mais utilizada no Brasil) são preenchidos com concreto em duas camadas iguais, cada uma adensada com 12 golpes da barra compactadora. O adensamento por agulha vibradora pode substituir o adensamento manual quando especificado. Após o preenchimento, a superfície superior é regularizada com um disco ou régua e os moldes são tampados para evitar a evaporação prematura da água de cura.
Cada exemplar é composto por dois corpos de prova da mesma amassada. Cada exemplar representa uma betonada específica, identificada com o número do caminhão, a data, o horário, o slump medido e a localização na estrutura onde aquele concreto foi lançado. Essa identificação é o que torna o laudo rastreável: o engenheiro ou o fiscal pode, meses depois, localizar exatamente em que coluna ou viga aquele concreto de resistência questionável foi applied.
Nas primeiras 24 horas após a moldagem, os corpos de prova permanecem nos moldes, protegidos de vibração, temperatura extrema e luz solar direta, em cura inicial. Após 24 horas, são desmoldados e transferidos para a câmara úmida do laboratório ou para cura submersa em água saturada de cal, onde permanecem até as idades de rompimento. O protocolo de transporte também é regulamentado: corpos de prova submetidos a choques mecânicos durante o transporte podem apresentar microfissuras internas que reduzem artificialmente o resultado de resistência sem que isso reflita o concreto real da estrutura.
Uma prática documentada em obras brasileiras é a moldagem por funcionários sem treinamento específico, sem atenção ao adensamento correto, com moldes sujos ou sem vedação adequada. O corpo de prova que chega ao laboratório nessas condições não representa o concreto que foi lançado na estrutura. Representa o erro de procedimento na coleta. É por isso que a equipe de controle tecnológico que molda os corpos de prova precisa ser técnica e independente da equipe de produção. Quando o mesmo operário que coloca o concreto molda o corpo de prova, os incentivos estão errados.
O rompimento nas idades críticas e o que cada resultado revela
Os corpos de prova são rompidos na prensa de ensaio em idades definidas pelo plano de controle tecnológico. As idades padrão são 7, 14 e 28 dias, cada uma com uma função específica na cadeia de informação.
O rompimento aos 7 dias fornece uma estimativa prévia da resistência. A maioria dos concretos convencionais de cimento Portland atinge entre 65% e 75% da resistência final de 28 dias aos 7 dias de cura. Se o resultado aos 7 dias está muito abaixo do esperado, o projetista e o responsável técnico são alertados com antecedência, ainda dentro de uma janela de tempo que permite investigar a causa antes da desmoldagem de formas e o prosseguimento estrutural.
O rompimento aos 14 dias confirma a tendência de evolução da resistência. Um concreto que evoluiu normalmente de 7 para 14 dias sugere que o processo de hidratação segue o curso esperado e que o resultado de 28 dias deve ser adequado. Um resultado que não evoluiu, ou que até recuou, é um sinal de problema que merece investigação antes do rompimento final.
O rompimento aos 28 dias é o parâmetro de aceitação. É o valor que será comparado com o fck especificado em projeto e que determinará a aceitação ou a rejeição da betonada conforme os critérios da NBR 12655.
A NBR 12655 estabelece dois sistemas de controle de resistência: a amostragem parcial e a amostragem total. No controle por amostragem total, todas as betonadas são amostradas e cada exemplar representa a sua betonada de origem. No controle por amostragem parcial, os exemplares representam lotes de betonadas, com critérios estatísticos definidos para o número mínimo de exemplares por faixa de resistência.
Os critérios de aceitação automática pela norma exigem que:
- Cada exemplar individualmente apresente resistência igual ou superior a 0,85 × fck.
- O fck estimado do lote, calculado a partir dos resultados individuais, seja igual ou superior ao fck de projeto.
O resultado do exemplar é tomado como o maior dos dois valores dos corpos de prova que o compõem. Essa metodologia protege contra o resultado artificialmente baixo de um CP que sofreu dano antes do ensaio, sem abrir mão da rigorosidade estatística do conjunto.
Quando um exemplar apresenta resistência abaixo de 0,85 × fck, ou quando o fck estimado do lote fica abaixo do especificado, a estrutura não é automaticamente rejeitada. Inicia-se um protocolo de investigação.
O ensaio de compressão axial, regulamentado pela NBR 5739, determina a resistência característica do concreto à compressão (fck) e é o parâmetro de aceitação ou rejeição de cada betonada pela NBR 12655.
Quando o resultado fica abaixo do fck: o protocolo técnico de investigação
Um único corpo de prova com resultado abaixo do fck não encerra a análise. O concreto é um material com variabilidade natural, e o processo de coleta, moldagem, cura e transporte do corpo de prova introduz fontes adicionais de variação que podem ser independentes da qualidade do concreto da estrutura. Um CP que sofreu impacto no transporte, que foi curado inadequada ou que foi ensaiado com geometria imperfeita pode subestimar a resistência real do material.
O protocolo de investigação quando um resultado gera dúvida segue uma sequência lógica e crescente de complexidade:
1. Verificação do histórico do exemplar. O primeiro passo é revisar o registro de coleta, transporte, cura e ensaio. Se houver evidência de alguma irregularidade no corpo de prova, o resultado pode ser desconsiderado para fins de aceitação, mediante registro técnico formal da irregularidade.
2. Rompimento dos corpos de prova de reserva. Quando o plano de controle prevê a moldagem de CPs adicionais mantidos em reserva, esses são rompidos para confirmar ou contradizer o resultado questionável. Resultados de reserva próximos ou acima do fck indicam problema no CP original, não no concreto.
3. Ensaios não destrutivos in situ. Se a dúvida persists, ensaios não destrutivos realizados diretamente no elemento estrutural oferecem evidências complementares sem danificar a estrutura. A esclerometria (NBR 7584) mede a dureza superficial do concreto endurecido e estima indiretamente a resistência. O ultrassom (NBR 8802) avalia a velocidade de propagação de ondas elásticas, detectando heterogeneidades e descontinuidades internas.
4. Extração e ensaio de testemunhos. Se os ensaios não destrutivos não resolvem a dúvida, ou se os resultados indicam problema real, a etapa seguinte é a extração de testemunhos (testemunhos de concreto ou “cores”) do elemento estrutural, seguida do ensaio de compressão conforme a NBR 7680. Antes da extração, a pacometria mapeia a localização das armaduras para evitar cortar barras de aço com a sonda rotativa.
O resultado de resistência dos testemunhos extraídos é corrigido por coeficientes que levam em conta a relação altura/diâmetro do testemunho, a direção de extração em relação à concretagem e o estado de umidade da amostra. O fck equivalente calculado com os testemunhos é então comparado com o fck de projeto.
5. Reavaliação estrutural pelo projetista. Se o fck equivalente dos testemunhos ainda ficar abaixo do projeto, o projetista estrutural realiza uma nova verificação de segurança utilizando a resistência real determinada pelos testemunhos. Se a estrutura, mesmo com a resistência inferior, ainda atende aos estados limites de projeto, ela pode ser aceita com documentação formal da decisão. Se não atender, as opções são o reforço estrutural ou a demolição e recomposição do elemento.
Esse protocolo não é uma garantia de que tudo terminará bem. É a garantia de que a decisão será técnica, documentada e rastreável, independentemente do resultado.
Carbonatação e corrosão de armaduras: a patologia mais silenciosa e mais cara
A corrosão das armaduras é a patologia mais frequente e economicamente mais impactante em estruturas de concreto armado no Brasil e no mundo. A International Federation for Structural Concrete (fib) reconhece a corrosão como uma das principais causas de deterioração prematura de estruturas de concreto. E a causa mais comum de corrosão prematura é a carbonatação associada a cobrimento insuficiente e concreto excessivamente poroso, dois parâmetros que o controle tecnológico controla diretamente.
O mecanismo começa com a alcalinidade do concreto. O concreto recém-produzido tem pH entre 12 e 13, resultado da presença de portlandita (Ca(OH)₂) formada na hidratação do cimento. Nesse ambiente altamente alcalino, as barras de aço desenvolvem uma camada passivadora de óxido estável que as protege da oxidação. Enquanto essa camada existir e o pH se mantiver alto, as armaduras não corroem.
O problema começa quando o CO₂ atmosférico penetra na massa do concreto por difusão e reage com a portlandita, formando carbonato de cálcio (CaCO₃) e reduzindo o pH progressivamente. Esse processo é a carbonatação. Quando a frente de carbonatação alcança a armadura e o pH local cai abaixo de 9, a camada passivadora é destruída e o processo corrosivo tem início na presença de umidade e oxigênio.
A expansão do aço em corrosão pode chegar a oito vezes o volume original. Essa expansão gera tensões de tração no concreto circundante que superam a resistência à tração do material, gerando fissuras paralelas à armadura, desplacamento do cobrimento e exposição progressiva das barras ao ambiente. A partir da fissuração, o processo acelera exponencialmente: a fissura abre caminho para mais CO₂ e umidade, a corrosão avança mais rápido, o cobrimento se desprende em placas maiores.
Os fatores que aceleram a carbonatação são exatamente os que o controle tecnológico do concreto verifica e controla:
- Alta relação água/cimento, que aumenta a porosidade e facilita a difusão do CO₂.
- fck abaixo do mínimo exigido pela NBR 6118 para a classe de agressividade ambiental da obra, indicando concreto de menor densidade e maior permeabilidade.
- Cura insuficiente, que deixa o concreto superficial com hidratação incompleta e maior porosidade na região de cobrimento.
- Cobrimento abaixo do mínimo normativo, que reduz o trajeto que a frente de carbonatação precisa percorrer antes de alcançar a armadura.
A NBR 6118 exige cobrimentos mínimos nominais que variam de 25 mm (classe I) a 50 mm (classe IV). A NBR 15575, que estabelece os requisitos de desempenho para edificações habitacionais, define como vida útil de projeto mínima 50 anos para os sistemas estruturais. Atingir esse prazo com o cobrimento e o fck corretos é viável. Atingi-lo com cobrimento de 15 mm e fck 20% abaixo do especificado é improvável.
A extração de testemunhos, regulamentada pela NBR 7680, permite verificar a resistência real do concreto já incorporado à estrutura quando os resultados dos corpos de prova geram dúvida sobre a segurança estrutural.
Os ensaios complementares para diagnóstico de concreto existente
O controle tecnológico do concreto não serve apenas para obras em andamento. Serve também para o diagnóstico de estruturas já construídas, quando surgem manifestações patológicas, quando há suspeita de resistência inadequada em obras antigas, ou quando se deseja avaliar a condição estrutural de um edifício antes de reforma ou ampliação. Para esses casos, existe uma série de ensaios especiais que, combinados, constroem o diagnóstico completo da estrutura.
Esclerometria
O ensaio de esclerometria, regulamentado pela ABNT NBR 7584:2012, utiliza o esclerômetro de reflexão (martelo de Schmidt) para medir o índice esclerométrico da superfície do concreto. O equipamento projeta uma massa contra a superfície e mede o ricochete, que é proporcional à dureza superficial. A norma estabelece os procedimentos de preparo da superfície, o número mínimo de impactos por ponto de medição e as correlações para estimativa de resistência.
A esclerometria é um ensaio de triagem eficiente: rápida, não destrutiva e aplicável a grandes áreas em pouco tempo. Seu limite é que avalia apenas a superfície do concreto, que pode ter propriedades diferentes do interior da peça. Por isso, nunca é usada isoladamente como parâmetro de aceitação ou rejeição de resistência. Serve como orientador para a seleção dos pontos de extração de testemunhos.
Ultrassonografia
O ensaio de ultrassom, regulamentado pela ABNT NBR 8802:2019, mede a velocidade de propagação de ondas elásticas de alta frequência através do concreto. Regiões com fissuras, vazios ou ninhos de concretagem reduzem a velocidade de propagação, permitindo mapear a homogeneidade interna da estrutura sem perfurá-la. O ensaio também é usado para estimar o módulo de elasticidade e detectar deformações estruturais internas.
Pacometria
O pacômetro utiliza indução eletromagnética para localizar a posição, o diâmetro estimado e o cobrimento das barras de aço dentro do concreto, sem nenhuma intervenção na estrutura. É utilizado antes de qualquer ensaio destrutivo, particularmente antes da extração de testemunhos, para garantir que a sonda rotativa não seccione barras de armadura durante a extração. Também é usado para verificar se o cobrimento real executado corresponde ao cobrimento de projeto especificado na NBR 6118.
Extração e ensaio de testemunhos
A extração de testemunhos, regulamentada pela ABNT NBR 7680:2015, é o único método que permite determinar a resistência real do concreto já incorporado à estrutura. A sonda rotativa extrai um núcleo cilíndrico de concreto que é preparado em laboratório, tendo suas extremidades regularizadas, e então rompido na prensa conforme a NBR 5739. Os coeficientes de correção de resistência definidos na NBR 7680 levam em conta a relação altura/diâmetro do testemunho, sua posição na peça e o estado de umidade, para que o resultado expresse a resistência equivalente à de um CP padrão de 28 dias.
Os ensaios especiais disponíveis para diagnóstico de estruturas de concreto cobrem todo esse espectro, da esclerometria à extração de testemunhos, com emissão de laudos técnicos que sustentam a decisão do projetista e do responsável pela avaliação da estrutura.
Como o concreto é recebido e aceito: o fluxo completo pela NBR 12655
Para que o processo de controle tecnológico do concreto produza dados confiáveis, todos os agentes envolvidos precisam ter responsabilidades claramente definidas. A NBR 12655 faz exatamente isso, distribuindo obrigações entre quatro agentes:
O projetista estrutural é responsável por especificar, em todos os desenhos e memoriais, o fck do concreto, a resistência para etapas construtivas como remoção de formas e protensão, os requisitos de durabilidade (cobrimento, relação a/c máxima, consumo mínimo de cimento) e a classe de agressividade ambiental adotada. Essas especificações são o ponto de partida de todo o controle. Sem elas documentadas, não há critério de aceitação.
O responsável pelo concreto (fornecedor ou central dosadora) é responsável por fornecer o concreto com as propriedades especificadas, acompanhado de nota fiscal que identifica o traço, o fck previsto, a relação a/c e os materiais constituintes.
O responsável pela execução é quem garante que o concreto especificado é efetivamente aplicado na obra, que o slump test é realizado, que os corpos de prova são moldados e identificados corretamente e que o resultado do controle é comparado com as especificações.
O proprietário e o responsável técnico são os responsáveis finais pelo recebimento e aceitação, com obrigação de manter toda a documentação do controle tecnológico do concreto arquivada por no mínimo cinco anos.
Essa distribuição de responsabilidades tem implicação jurídica direta. Em caso de patologia estrutural que resulte em processo, a cadeia documental do controle tecnológico é o que determina onde está a responsabilidade. Uma obra com laudos completos, rastreabilidade das betonadas e arquivo de resultados tem elementos técnicos para demonstrar que o controle foi realizado. Uma obra sem esses documentos não tem como provar nada.
O controle tecnológico do concreto como sistema de gestão da obra
Tratar o controle tecnológico do concreto como uma série de ensaios isolados é subutilizar o que o sistema pode oferecer. Quando os laudos são arquivados de forma organizada, com rastreabilidade das betonadas e localização dos elementos estruturais, o responsável técnico passa a ter um histórico técnico completo da estrutura.
Esse histórico permite responder a qualquer questionamento posterior sobre a qualidade do concreto de qualquer elemento específico da obra. Permite identificar tendências de variação ao longo da obra e agir preventivamente antes que uma tendência de queda de resistência se torne um lote reprovado. Permite demonstrar conformidade em auditorias do PBQP-H, que listam as falhas nos controles tecnológicos e nas rastreabilidades de elementos estruturais entre as não conformidades mais recorrentes.
O controle tecnológico do concreto é mais barato do que qualquer recuperação estrutural. É mais rápido do que qualquer investigação retroativa. E é mais seguro do que qualquer tomada de decisão baseada em avaliação visual. Para as construtoras que operam em Goiás e no Centro-Oeste, o controle tecnológico de concreto da Contech, realizado por laboratório certificado ISO 9001, garante a rastreabilidade completa de cada betonada e a agilidade de resultados que o ritmo de obra exige.
Entre em contato com a equipe técnica da Contech para estruturar o plano de controle tecnológico do concreto adequado à sua próxima obra, da fundação ao último laje.
Perguntas Frequentes
Qual o fck mínimo exigido pela NBR 6118 para concreto estrutural em ambientes urbanos?
Para a classe de agressividade ambiental II, que abrange a maioria dos ambientes urbanos brasileiros, a NBR 6118 exige fck mínimo de C25 (25 MPa) com relação água/cimento máxima de 0,60 para concreto armado. Em regiões de agressividade mais alta (classe III, como zonas industriais ou litorâneas), o mínimo sobe para C30 com a/c máximo de 0,55. A classe IV (zona de respingo marinho ou atmosfera industrial) exige C40 com a/c máximo de 0,45.
O que fazer quando um corpo de prova rompe abaixo do fck especificado?
O primeiro passo é verificar se houve irregularidade no manuseio, cura ou transporte do corpo de prova, que pode ter introduzido dano independente da qualidade do concreto. Em seguida, os corpos de prova de reserva da mesma betonada são rompidos. Se o problema se confirmar, realizam-se ensaios não destrutivos in situ (esclerometria e ultrassom) e, se necessário, extração de testemunhos conforme a NBR 7680. O projetista estrutural avalia a segurança com a resistência real determinada, decidindo pela aceitação, reforço ou demolição.
Quando é necessário extrair testemunhos de concreto de uma estrutura existente?
A extração de testemunhos (NBR 7680) é indicada quando os laudos de corpos de prova apresentam resistência abaixo do critério de aceitação da NBR 12655 e os ensaios não destrutivos não são conclusivos, quando há manifestações patológicas como fissuras ou desplacamento que sugerem resistência insuficiente, quando a obra não dispõe de controle tecnológico documentado e surge necessidade de verificação retroativa, ou antes de reformas ou ampliações em estruturas antigas sem histórico de controle.



